Eles receberam da AIB, acusada de ser entidade de fachada de sindicato imobiliário
O juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Aloisio Sérgio Rezende Silveira, cassou e declarou inelegíveis
por três anos 13 dos 55 vereadores paulistanos (23,6% da Câmara Municipal), por receberem doações
da AIB (Associação Imobiliária Brasileira) consideradas ilegais.
O caso foi revelado pela Folha em abril deste ano. A AIB é uma associação acusada de funcionar como
entidade de fachada do Secovi-SP (sindicato do setor imobiliário) para fazer doações a políticos;
o sindicato sempre negou qualquer vínculo com as doações.
Na época, a Folha revelou que a AIB não tem website, escritório em funcionamento, é desconhecida
no local informado à Receita onde funcionaria sua sede e, segundo seu presidente, Sergio Ferrador, não tem associados
ou receita fixa.
A AIB foi a segunda maior financiadora de candidatos em 2008 (R$ 6,5 milhões doados). A Lei Eleitoral (9.504/97)
proíbe a doação de sindicatos e estabelece que, no caso de pessoas jurídicas, elas não
podem ultrapassar 2% de sua renda bruta do ano anterior.
PSDB e DEM -os dois principais partidos na gestão do prefeito
Gilberto Kassab (DEM)- tiveram o maior número de vereadores cassados.
Foram seis tucanos (Adolfo Quintas, Carlos Alberto Bezerra Jr., Claudinho, Dalton Silvano, Gilson Barreto e Ricardo Teixeira)
e quatro democratas (Carlos Apolinário, Domingos Dissei, Marta Costa e Ushitaro Kamia). Os outros foram Adilson Amadeu
(PTB), Abou Anni (PV) e Wadih Mutran (PP).
O juiz ainda tornou inelegível por três anos Marcos Vinicius de Almeida Ferreira (PR), o Quito Formiga, mas
disse que a cassação de seu diploma está "prejudicada" porque ele foi eleito como suplente e, portanto,
não deve perder o mandato.
Formiga foi empossado no cargo de vereador já no dia 1º de janeiro deste ano, pois o titular da vaga, Marcos
Cintra (PR), foi nomeado secretário municipal de Trabalho.
Os cassados dizem que vão recorrer da decisão
ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral), ao qual podem pedir a suspensão temporária da perda de mandato até
que o mérito seja julgado.
Até o fechamento desta edição, nenhum recurso havia sido protocolado.
As representações
foram propostas, em maio, pelo Ministério Público Estadual, que denunciou 29 vereadores sob acusação
de captação ilícita de recursos. Ainda não houve sentença em 11 casos e eles também
poderão ser cassados.
O juiz Rezende Silveira rejeitou a cassação de mandato de quatro vereadores- Noemi Nonato (PSB), Floriano
Pesaro (PSDB), Goulart (PMDB) e Toninho Paiva (PR)-, por considerar que o percentual das doações da AIB no total
arrecadado não era significativo. A Promotoria disse que vai recorrer.
Atuação
Entre os vereadores que receberam da AIB, muitos apresentaram projetos ou têm atuação em comissões
de interesse do setor imobiliário na Câmara. Carlos Apolinário, por exemplo, é líder da
bancada do DEM e presidente da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio ambiente. Entre os cassados,
outros líderes são Carlos Alberto Bezerra Jr. (PSDB) e Wadih Mutran (PP).
"Confio que essas cassações serão mantidas no TRE", disse o promotor Maurício Antônio
Ribeiro Lopes, da 1ª Zona Eleitoral, responsável pelas denúncias. "Temos que comemorar o triunfo da Justiça.
É a primeira decisão que moraliza o processo político eleitoral, controlando o abuso do poder econômico.
Não é contra o vereador, mas a favor da democracia."
FONTE: Folha de S.Paulo (Fernando Barros de Mello)