Para maioria do STF, decisão sobre a extradição inicia e termina no Executivo; agora, governo
buscará tese para evitar embate com Itália
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por ganhar tempo e buscar uma saída jurídica para manter
no Brasil o ex-terrorista italiano Cesare Battisti, cuja extradição foi autorizada nesta quarta-feira(18) pelo
STF (Supremo Tribunal Federal. A AGU (Advocacia Geral da União) já foi acionada nesse sentido.
Depois de intensos debates entre os ministros, o STF decidiu-se nesta quarta pela extradição do italiano,
mas delegou a Lula a deliberação final. As duas votações foram definidas pelo apertado placar
de 5 votos a 4.
O terceiro e derradeiro capítulo do julgamento começou com o presidente do tribunal, Gilmar Mendes, dando
o voto de desempate pela extradição.
Além de considerar ilegal a concessão do refúgio político a Battisti, dada em janeiro pelo
ministro Tarso Genro (Justiça), Mendes entendeu como comuns, e não políticos, os quatro assassinatos
pelos quais o ex-terrorista foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1988. Nos anos 70, ele
militava no movimento de extrema esquerda PAC (Proletários Armados pelo Comunismo).
"Havendo democracia [como na Itália dos anos 70], não há espaço para crime político",
disse Mendes em seu voto.
Esse entendimento prevaleceu, mas o ministro foi derrotado no outro ponto. Ele entendeu que a decisão do tribunal
era "determinativa", ou seja, Lula estaria obrigado a extraditar o ex-guerrilheiro. Cinco ministros, a maioria, discordaram
e votaram que o presidente da República não está compelido a seguir o tribunal. As extradições
"começam e acabam no Executivo", disse Ayres Britto.
A Folha apurou que, se não encontrar uma nova fundamentação jurídica a favor do italiano, Lula
extraditará Battisti para não comprar uma briga direta com o Supremo, corte de Justiça com a qual tem
suas diferenças, apesar de ter indicado 7 dos atuais 11 ministros.
A avaliação da cúpula do governo é a de que Lula "não conseguirá agradar a gregos
e troianos". O presidente sabe que parcela da esquerda brasileira ficará desapontada se ele optar por enviar Battisti
à Itália. E sabe que a Itália reagirá furiosamente se mantiver o ex-terrorista no Brasil. Uma
argumentação jurídica nova, dentro do tratado de extradição entre os dois países,
minimizaria uma crise diplomática.
Segundo a Folha apurou, uma saída jurídica em discussão no governo é partir do entendimento
de que o STF anulou a decisão do refúgio concedido por Tarso, que usou como argumento "fundado temor de perseguição
política". Daí, seria possível usar o mesmo argumento como motivo para, respeitando o tratado de extradição
que tem com a Itália, negar a entrega de Battisti.
Nos bastidores, avalia-se que Tarso falhou na concessão do refúgio a Battisti, pois ultrapassou o campo político
e entrou no mérito da competência da Justiça italiana e da Corte Europeia.
Nesta quarta, durante a sessão, o ministro Eros Grau, seguindo o relator do caso, Cesar Peluso, disse que, para
se negar a entregar Battisti à Itália, o presidente Lula deve respeitar o tratado.
Eros emendou, dizendo que o único argumento possível era a letra "f" do artigo 3º do documento, pelo
o qual o Brasil alegaria fundado temor de que a Itália poderia submeter Battisti a "atos de perseguição
e discriminação por motivo de raça, religião, sexo, nacionalidade, língua, opinião
política, condição social ou pessoa". Até a decisão de Lula, Battisti ficará preso.
FONTE: Folha de S.Paulo (Andrea Michael, Kennedy Alencar e Felipe Seligman)