Os elevados gastos com campanhas eleitorais são uma
confissão pública e notória de corrupção. Computando-se todas as remunerações que o eleito recebe dos cofres públicos durante
seu mandato, verifica-se que são muito inferiores ao que foi gasto na campanha. Então, é óbvio que eles irão querer recuperar
pelo menos o que gastaram, porque ninguém é candidato para fazer caridade. Muitos
deles não gastam dinheiro próprio; sua eleição é financiada por grupos poderosos,
inclusive de bicheiros ou de traficantes, o que os obriga a agir de acordo com a orientação desses grupos. A corrupção pode ocorrer em dois momentos: antes das eleições, quando se angariam
fundos, indo além dos limites e procedimentos previstos em lei, e depois delas, através de diversas formas de atuação, pois
é fértil o campo para obter propinas: "compensação" para apresentar projetos de lei de interesses de grupos ou para votar
neles, para contratar obras, para liberar construções, para liberar verbas para diversos fins... Há outro ângulo da campanha, muito interessante para alguns políticos, como revela
o jornalista Alex Gutenberg: "Num determinado momento da campanha de 1986, as burras estavam
cheias. Em português mais acessível, a grana estava nas contas bancárias dos laranjas e dos diversos caixas 2. Foi quando,
numa daquelas reuniões, desta vez sem os empresários, apenas com políticos, um candidato a deputado estadual mais ingênuo
perguntou: "E se eu perder?? ?Ora?, disse o político experiente, conhecido nacionalmente, ?se alguém aqui perder, não faz
mal algum. Você precisa aprender que a gente faz campanha para ganhar dinheiro e não para ganhar eleições. A grana que entra
é ótima, resolve o problema da sua vida. Se por acaso o sujeito for eleito, fica com bônus". Jamais me esquecerei daquelas
palavras, ainda mais vindas de um sujeito de primeiro escalão da política brasileira. "No caso
Collor, comentava-se que a dinheirama levantada pelo P. C. Farias durante a campanha chegava a 1 bilhão de dólares. Não é
exagero. Muita gente morreu por causa da grana." Por essas razões, deve ser repensada a forma atual de financiamento das campanhas eleitorais, que estão comprometendo
o próprio sistema democrático, como admoesta Carlos Heitor Cony: "O financiamento das campanhas funciona como um vírus que
infecta todo o sistema. Pode parecer insignificante se comparado aos grandes desafios da nação, mas o estrago que faz nos
circuitos internos do computador, ou melhor, da máquina do governo, torna venal toda a estrutura do Estado."
GUTENBERG, Alex. Políticos querem fazer dinheiro
na campanha. Vencer eleição é uma história secundária. Jornal O Estado do Paraná,
24 de março de 2002, p. 9.
CONY,
Carlos Heitor. O vírus e a infecção. In Folha de São Paulo, 5ª feira, 5 de junho de 2003, p. A-2.
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