O pífio resultado do segundo trimestre, 0,5% de crescimento do PIB, deixou o Senhor Presidente muito contrariado,
pois haviam lhe prometido algo mais substancial. Mas, ao invés de contrariado, o Senhor Presidente deveria mostrar-se mesmo
é indignado, visto que há mais de três anos suas equipes lhe autorizaram a lançar o "Espetáculo do Crescimento", do qual até
agora não vimos o menor sinal. Descartemos as simplórias explicativas do tipo "as fábricas pararam para ver os nossos
craques disputarem a Copa". Alguns ministros garantem que ninguém deve ser preocupar, que tudo passará. "Foi somente um soluço",
afirmam. A verdade é que em termos anuais o crescimento do PIB brasileiro está em 1,7% e que a indústria decresceu 0,3% no
segundo trimestre. Então, se não crescemos no meio de um auge expansivo da economia mundial, é o caso de o Senhor Presidente,
indignado em nome do povo que representa, reunir sua equipe econômica, discernir o que está errado com esta política e alterá-la
enquanto é tempo. Tempo para evitar uma terceira década perdida, além dos anos 80 e 90. Não há o que tergiversar Senhor
Presidente. O Brasil está preparado para crescer, mas isso não acontecerá enquanto a taxa de investimento não aumentar. E
no momento ela está decrescendo: menos 2,2% no segundo trimestre. Vamos fechar o ano abaixo de 20% de investimentos em relação
ao PIB. E o clima é de muita incerteza em relação a 2007. Certamente há outros caminhos e eles são conhecidos. É evidente
que a política monetária adotada não contempla os interesses do país, pois subordina todos os esforços de produção para garantir,
através de altas taxas de juros, a estabilidade dos ganhos rentistas dos aplicadores de títulos públicos e do sistema financeiro. O
Governo não pode ignorar que o sistema financeiro brasileiro é o que menos financia a produção e o investimento produtivo
no mundo e pratica os maiores "spreads" em suas múltiplas taxas de juros de mercado. E o Banco Central deveria estar adotando
políticas ativas visando reduzir estas distorções, exatamente por não ser uma autoridade monetária criada para sancionar privilégios
setoriais. Um Banco Central não pode ignorar a anomalia de uma taxa de juros básica real que permanece anos a fio mais
elevada que as taxas de lucro médias da maioria dos setores produtivos da economia. Somos um país raro, praticamos uma explícita
política de desestímulo ao investimento. E isso o Governo deve mudar. E tem poder para tanto. Também é evidente que o Presidente
pode determinar uma inflexão acentuada na política cambial, pois não há sentido em manter o real como a moeda mais valorizada
do mundo. Os efeitos de desestímulo exportador e estímulo importador desta valorização costumam tardar, mas não falham em
se manifestar. E já estão cobrando seu preço. O Presidente não poderá se eximir da responsabilidade histórica de exportar
empregos dos nossos trabalhadores e consolidar um processo de destruição do tecido industrial, penosamente construído ao longo
de décadas, ao invés de adotar políticas para qualificá-lo a se tornar mais competitivo. Não há como repetir a saga industrializante
de um JK, se todas as políticas e ações macroeconômicas atuais caminham em sentido contrário. Vários especialistas e empresários
já afirmam que estamos trilhando o caminho da desindustrialização e de uma especialização passiva da indústria. De qualquer
forma, este câmbio constitui uma insensatez ao destruir capital e empregos de trabalhadores em setores onde existe reconhecida
eficiência produtiva competitiva. Estas empresas poderiam estar criando novos empregos e mercados. Só não o fazem devido aos
juros anômalos, ao câmbio supervalorizado, à derrama de impostos e aos inúmeros gargalos logísticos. O Governo não deveria
desconhecer que as suas poucas políticas de fomento ao crescimento e competitividade das empresas, tais como as linhas de
financiamentos de longo prazo - às quais os empresários apóiam decididamente - infelizmente têm tido uma baixa adesão e resposta
das empresas, decorrente exatamente destas perversas orientações macroeconômicas. A Presidência poderá contar com o decidido
apoio das forças sociais pró-desenvolvimento, caso oriente-se para enfrentar os interesses existentes no interior do Estado
e na sociedade em manter a atual política de financismo estéril, a qual certamente nos colocará este ano atrás do Haiti em
termos de crescimento. Todos os indicadores da economia real impõem a necessidade de mudar. Nossa política econômica está
equivocada. Aja, Senhor Presidente, desde já, antes que mais uma década perdida sepulte as esperanças dos brasileiros.
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