Se
nós, eleitores, tivéssemos bola de cristal, certamente escolheríamos, aclamaríamos, o mesmo candidato. Qual? Aquele que o
futuro nos revelaria ser o melhor, reunindo competência e ética. Como não temos esse olhar privilegiado e temos, cada um,
uma visão particularíssima da realidade, uma concepção de país, necessidades, interesses, sonhos, vinculações sociais, traços
ideológicos específicos, esse pleito coloca-se então como uma forma meio rudimentar de apontar o preferido, que nem sempre
revela-se o melhor; mas enfim, o que for eleito, eleito permanece e reina até o fim do mandato, se nenhum motivo de impeachment surgir.
Nosso
processo eleitoral está longe de ser uma modalidade de escolha dos melhores. Até porque nem temos uma escola política voltada
à formação de lideranças. As que se apresentam o fazem por motivos muitas vezes aleatórios quando não esdrúxulos. É o Zé da
Padaria, o Mané da Kombi... Ser um pouco ou mesmo muito conhecido não é critério válido. O Pelé insinuou certa vez, mas, sabiamente,
desistiu de se aventurar na política. Vontade e boas intenções não bastam. Não estranhemos, pois, os desacertos e que matizes
partidários não revelem diferencial nenhum.
Se
imediatamente após a ditadura militar, o desejo mais profundo dos brasileiros era o de liberdade, nos mais diversos sentidos,
hoje, com o belíssimo conjunto de leis que temos, o que mais nos interessa é a democracia real: que as instituições criadas
nessas décadas de esforço funcionem, não vamos dizer como uma empresa, no sentido de lucro e mercado, mas como modernas organizações,
produtivas, ágeis, transparentes, capazes efetivamente de promover a inversão da pirâmide social e de criar um ambiente de
entusiasmo geral, paz social, oportunidades de crescimento em todos os campos. O econômico é só um deles. Temos potencial
nos esportes, nas artes, na cultura, na literatura, nas ciências...
Parece
simples e óbvio afirmar que precisamos escolher homens e mulheres públicos. É que estamos cheios de representantes de si mesmos
e de seus clientes, personalidades sem nenhuma vocação para o trato com o bem comum. O que pensar depois das séries de casos
de corrupção, a exemplo do mensalão, dos sanguessugas, e da rede desbaratada, em Rondônia, onde o Legislativo, o Executivo
e o Judiciário trabalhavam em invejável harmonia no assalto aos cofres públicos?
Tão cedo sairemos dessa sombra em que a coisa pública é objeto de saque, enquanto houver nos órgãos e instâncias de
poder presenças fisiológicas e aventureiras. Imaginar, a curto prazo, uma modernização do setor é uma utopia. Mas não deixa
de ser um projeto que tenhamos novas gerações com cabeça efetivamente comprometida com o coletivo. Esperamos que o Portal
da Democracia (www.portaldademocracia.org.br),
que acabamos de lançar, atue um pouco nesse sentido, como espaço de treinamento e amadurecimento dos brasileiros na cidadania.
A propósito, pelo que representam ao bem comum, cidadania e política deveriam ser matéria escolar, desde as primeiras séries,
e não conceitos esparsos.
Mudar
posturas, porém, não basta. Comprovado está que uma das causas de atraso e desmandos no ambiente público são estruturas e
sistemas arcaicos, centralizados, excessivamente burocráticos, lentos na assimilação de modernos princípios de gestão e de
tecnologias, capazes ao mesmo tempo de dinamizar processos e dificultar fraudes. Há regras que favorecem tanto políticos quanto
servidores inescrupulosos. Nesse ponto, o setor privado está bem à frente. Nas empresas
também ocorrem irresponsabilidades, desperdícios, corrupção, gastos inadequados. A diferença está no controle, mais incisivo,
e na punição, drástica e imediata.
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