Na sua raiz
latina, a palavra candidato (candidatus) traz uma conotação que ainda hoje prezamos. Aspirantes a funções, originalmente religiosas,
vestiam uma túnica branca e apresentavam-se ao público que tinha a liberdade de atirar barro em quem julgasse indigno do posto.
Quem saísse limpo era escolhido. A simbologia é auto-explicativa. A
aplicação desse processo, em nossas eleições, poderia ser bem divertida, muito mais ao gosto do espírito brasileiro do que
clicar em frias teclas eletrônicas. Seria uma festa! Mas é de duvidar, nesses tempos em que ser cândido virou sinônimo de
burrice, se alguém sairia limpo ao final da prova. Além de demonstrar ética e honradez a toda prova, o futuro presidente
da República que estamos indicando terá o desafio de gerenciar um orçamento de R$ 467 bilhões, por baixo, já que o número
foi estimado tomando por base apenas 20% de toda a produção nacional; terá de imprimir ao País um ritmo de crescimento igual
ao dos países emergentes, acima da taxa mundial ( no período de 1996 a 2005, a economia mundial cresceu 3,8% ao ano e o Brasil
apenas 2,2%); terá a missão de dissolver as desigualdades sociais e universalizar a educação em todos os níveis... Para citar
algumas grandes metas.
Entre as contradições
que aguardam o futuro governo, no entanto, seja ele quem for, há um orçamento previsto para a educação e a saúde igual ao
montante destinado a cobrir o déficit da Previdência, R$ 46 bilhões; o pagamento de juros será uma das maiores despesas;
a folha de pessoal deverá consumir 25% da arrecadação (cerca de R$ 118 bilhões); a infra-estrutura deverá receber recursos
iguais aos programas assistenciais, cerca de R$ 13,7 bilhões. Um desafio, portanto, é encontrar um novo modelo de gestão
pública. O que vem sendo aplicado, inspirado na Constituição de 1988, enredou-se nas teias do gerencialismo, revelando-se
incapaz sequer de criar um ambiente favorável ao empreendedorimo, uma das principais bandeiras desse sistema. Prova é o espantoso
número de regras que amordaçam a economia e as instituições: 3,5 milhões, nos últimos 18 anos, segundo o Instituto Brasileiro
de Planejamento Tributário (IBPT); 229 mil somente referentes a tributos; 141.771 no âmbito federal, 891.112 no estadual e
2.447.920 no municipal. Uma administração que sente necessidade de instituir 2,13 normas tributárias por hora prioriza
a arrecadação; faz da normatização um cientificismo, dando à máquina pública uma finalidade em si, quando ela existe para
atender aos anseios da nação, regulamentando sim, legislando, sem dúvida, mas com racionalidade, produtividade e clareza nos
fins. Não é impróprio comparar a gestão pública com a privada, cobrando eficiência, modernização, transparência. A diferença
é a capacidade do governante de proporcionar lucros à nação. É lenta, porém, a reengenharia dos nossos serviços públicos em
comparação com os avanços do setor privado.
Lenta também
é a abertura de canais para participação das forças sociais - condição fundamental para o avanço da democracia. Nosso sistema
político representativo perdeu o vigor: o eleitorado vota por votar, sem convicções, confere poder a candidatos ?maculados?;
o Legislativo transformou-se em mero apêndice do Executivo...
O presidente
que estamos procurando tem que começar, pois, promovendo uma mudança no modelo de gestão, com visão global sobre as questões
que afetam o País, responsabilidade nos gastos públicos, cortando os supérfluos; trabalhando em parceria com o Congresso,
as entidades e a sociedade, para promover desenvolvimento e criar oportunidades em todos os campos e a todos os segmentos
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