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A desvalorização do dólar

Enquanto uns encaram o fenômeno com indiferença ou mera curiosidade, há os que comemoram, porque são beneficiados de alguma forma, e os que lamentam, pelos prejuízos. O fato não chega a ser surpresa, pois segue uma tendência mundial. O real é só uma das moedas que vem valorizando em relação ao dólar, em um processo puxado pelo crescimento dos países emergentes e a paralela desaceleração da economia norte-americana agravada por problemas políticos. O dólar alcançou a sua máxima hegemonia, no século passado, comandando o mercado internacional como moeda-padrão. No novo cenário, o euro forte entrou em cena e os emergentes, com a China à frente, despontam crescendo de forma acelerada e atraindo fartos investimentos. O que ocorre, portanto, é uma reacomodação das forças econômicas, com mudanças acentuadas nos fluxos de capitais e de comércio.

O importante a analisar são os pontos em que tudo isso afeta a nossa vida. Aparentemente não é atingido quem não viaja para o exterior, não exporta ou importa, mas indiretamente todos nós sofremos algum impacto. Com o dólar barato, mais brasileiros podem viajar para fora. Aumenta a confiança externa, o Brasil passa a representar menos risco a seus parceiros e a receber mais investimentos. Os juros tendem a cair, aumenta a oferta de crédito a taxas menores, e o comércio interno torna-se mais dinâmico, aumentando o consumo. As empresas,  principalmente as grandes, são diretamente sacudidas, obrigadas a rever suas políticas e planejamentos: aquelas voltadas ao mercado interno verão intensificar-se a concorrência com importados mais em conta do que os seus produtos; já as exportadoras verão cair suas vendas externas; e, efetivamente, algumas estão cancelando contratos e, infelizmente, demitindo.

O único capaz de conter os impactos nocivos da queda do dólar é o governo, que precisa agir rapidamente para evitar desequilíbrios e conseqüências como fechamento de empresas e desemprego. Foi indiscutivelmente providencial o aumento do imposto de importação para dois setores dentre os mais afetados, o de calçados e produtos têxteis, de 20% para 35%.

Importa sublinhar, contudo, que, a exemplo da dama da famosa ópera, o câmbio è móbile, flutuante. Age dessa forma agora, nada assegurando que não mude o comportamento logo adiante, movido por novo ajuste de forças. Como evitar interferências negativas no processo de desenvolvimento do país? É aqui onde entra a inteligência do governo e a sua capacidade de oferecer as condições para estruturação de um ambiente econômico e social sustentável, equilibrado. O seu papel é comparável ao do capitão que, navegando por águas ora tranqüilas ora turbulentas, conduz a embarcação, os passageiros e a tripulação, a seu destino.

Maurício Fernando Cunha Smijtink, contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR




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